Fichamento do texto "Teoria do não objeto"
O não-objeto é uma entidade artística nova, distinta tanto do objeto utilitário quanto do objeto representado pela pintura ou escultura. Ele não remete a algo exterior, não representa; apenas se apresenta, integralmente perceptível, constituindo-se como uma experiência direta no espaço real. Surge como superação da moldura, da base, da representação e da opacidade do objeto comum.
Assim, o não-objeto realiza a síntese entre experiência sensorial e mental, é “pura aparência” e só existe no encontro com o espectador, que participa ativamente de sua atualização.
1. Morte da pintura
- A análise de Gullar parte da crise da pintura representativa desde o Impressionismo.
- A luz natural dissolveu o objeto; o quadro tornou-se mais importante que aquilo que representava.
- O Cubismo fragmentou o objeto em cubos e evidenciou a estrutura da pintura.
- Mondrian e Malevitch eliminaram todos os vestígios do objeto: a tela branca virou o “novo objeto”.
- Conclusão: a arte moderna deslocou o foco da representação para o próprio organismo da obra, abrindo espaço para o não-objeto.
2. A obra e o objeto
- Gullar discute como a moldura e a base perdem sentido quando a obra abandona a cópia do real.
- O artista passa a operar no espaço real, incorporando materiais concretos (papel, areia, objetos).
- Ready-mades de Duchamp revelam o deslocamento do objeto de sua função para o campo estético.
- Porém, obras como Fontana e Burri fracassam em atingir o não-objeto: continuam sendo “objetos curiosos”, ainda presos ao regime do espetáculo.
3. Formulação primeira
- A crítica não percebeu a importância da moldura e da base como “prisões culturais” da arte.
- Eliminá-las não é truque técnico, mas modo de fazer a obra surgir livre de significações externas.
- Arte tachista/informal é criticada: mantém a moldura e insere dentro dela “o mundo”, sem romper a convenção.
- A verdadeira ruptura é transpor a obra para o espaço real, fazendo com que ela se apresente como presença direta, não mediada.
4. Diálogo sobre o Não-Objeto
- Para Gullar, “objeto” = coisa ligada à função e ao uso; opaca e designável.
- O não-objeto é transparente à percepção, não está no campo do útil e nem da nomeação.
- Não é antiobjeto; é objeto especial que se esgota em sua presença.
- Distingue-se do “quase-objeto” (escultura ou obra que representa objetos).
- Supera a contradição figura-fundo: situa-se no próprio mundo, não em um espaço ilusório.
- Gullar estende o conceito para a linguagem verbal.
- Surge o “não-objeto verbal”, próximo dos poemas-processo neoconcretos.
- Palavras isoladas irradiam significações múltiplas; fusão não é entre artes, mas entre campos sensoriais e verbais.
- A poesia também busca o “estado primeiro do mundo”.
- O não-objeto exige movimento: o espectador o percorre, aciona, utiliza.
- A obra não se exaure na contemplação; precisa ser ativada.
- O tempo é constitutivo: uma “imobilidade aberta à mobilidade”.
- A ação do espectador não consome a obra, mas a incorpora ao seu sentido.
Conceitos-chave
- Não-objeto: entidade estética que não representa, não simboliza, não é útil; apenas se apresenta.
- Pura aparência: presença direta, sem mediação cultural ou simbólica.
- Transparência fenomenológica: o não-objeto se dá inteiro à percepção.
- Espaço real: abandono do espaço fictício da pintura.
- Anti-arte: descrição da arte moderna sempre ultrapassando seus próprios limites.
- Participação do espectador: a obra requer ação e se completa nela.